A relação do Ambiente Natural com a Cultura é um tema que tem vindo a ser discutido ao longo dos últimos séculos. Muitos foram os debates científicos relacionados com a compreensão desta relação, sobretudo no que tange á busca dos factores que produzem o que é especificamente humano, centrando as explicações ora em características hereditárias e instintivas ora para as características do meio ambiente em que o sujeito se insere e no peso da cultura na condição humana.
Embora já houvesse relatos descritivos de várias culturas, até meados do século XIX a Antropologia não se havia afirmado como uma ciência oficialmente reconhecida. Com as contribuições de Darwin, esta área de estudo inaugura uma nova fase de compreensão dos diferentes modos sociais de organização humana, fundamentando-se no ponto de vista que propõe a cultura como via de adaptação dos humanos na garantia e manutenção de sua sobrevivência (Titiev, 1966).
A ideia de progresso subjacente ao darwinismo, acabou por levar os antropólogos à distinção etnocêntrica entre sociedades “primitivas” e “avançadas”, como se as diferenças entre elas anunciassem indícios dos progressos da espécie humana nos modos de adaptação, através do aperfeiçoamento da cultura (Comissão Gulbenkian, 1990)
Em contraposição às teorias da utilidade e plasticidade da cultura, a perspectiva estruturalista do antropólogo Lévi-Strauss C. também representa a possibilidade de proporcionar um status maior à cultura, considerando-a com certa independência em relação à natureza. Na sua pesquisa de elementos que diferenciam entre o que é cultural e biológico, Lévi-Strauss (1976) propõe que aquilo que constitui uma regra reguladora dos comportamentos revela-se como factor cultural. Por outro lado, aquilo que se mostra constante na análise da diversidade cultural é critério para definir o natural.
A cultura é mais a expressão de uma economia de valores simbólicos do que um instrumento de garantia de melhores circunstâncias de sobrevivência da espécie.
Reserva-se à natureza, nessa óptica, o papel de conciliadora para tais processos, de modo que a cultura busca na natureza as categorias sobre as quais se assenta para organizar o espectro social.
Desde o início da modernidade, o processo civilizador leva ao constante exercício de negação da dimensão instintiva da vida humana, através da emergência da necessidade de autocontrolo como meio eficaz de regulação da vida social (Elias, 1990).
À medida que a natureza foi saturada dos sentidos que a tomam como campo de desordem, coube à razão, como atributo exclusivo humano, a tarefa de garantir a emancipação da espécie humana em relação a suas características consideradas próximas aos animais.
O indivíduo, como argumentam Sennett (1988) e Velho (1994), é uma abstracção que representa a busca de autonomia e de autenticidade, cada vez mais presente nos modos de vida ocidentais. Assim, ao descobrir o que lhe é específico, o indivíduo das sociedades ocidentais contemporâneas, consegue ter em mãos a garantia de estar além dos limites naturais, projectando-se como um ser autêntico e singular.
A investigação da emergência e características dessa singularidade mobiliza diversos campos disciplinares, entre os quais a Antropologia e a Psicologia, que se distinguem em razão da especificidade de seus objectos de estudo e dos métodos de investigação empreges. Ainda assim, é possível desenvolver um profícuo diálogo na medida em que as aproximações e distanciamentos trazem luz a um debate actual que está longe de ser encerrado, ou seja, sobre a relação do ambiente natural e cultura.
Titiev, M. (1966). Introdução à antropologia cultural (5ª ed.). Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian.
Comissão Gulbenkian. (1990). A construção histórica das ciências sociais, do século XVIII até 1945. Em I. Wallerstein (Org.), Para abrir as ciências sociais (pp. 13-53).
Lévi-Strauss, C. (1975). Totemismo hoje. Petrópolis: Vozes.
Lévi-Strauss, C. (1976). As estruturas elementares do parentesco.
Petrópolis, Vozes.
Elias, N. (1990). O processo civilizador (uma história dos costumes). Rio de Janeiro: Zahar Editor
Velho, G. (1994). Individualismo e cultura: Notas para uma antropologia da sociedade contemporânea (pp. 14-37). Rio de Janeiro: Zahar
Sennett, R. (1988). O Declínio do homem público: As tiranias da intimidade. São Paulo: Cia das Letras.
Luis Rodrigues
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
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